Em Defesa da Vida e Contra o Extremismo Religioso Imprimir
Qui, 27 de Agosto de 2020 06:08

Nós, do “Evangélicos pela Justiça” (EPJ) reafirmamos o compromisso com o Evangelho que liberta o ser humano de tudo aquilo que o oprime. Reafirmamos o compromisso com a vida, a fé na graça de Deus e rejeitamos os extremismos religiosos; reafirmamos o olhar de amor e compaixão nos moldes que aprendemos de Jesus – conforme consta nos evangelhos; reafirmamos o reconhecimento do Estado laico; reafirmamos a defesa da liberdade religiosa; reafirmamos a defesa da liberdade de pensamento.

 

 

A palavra “evangélicos” na sigla EPJ diz respeito antes àqueles que, crendo em Jesus e como fruto dessa crença, adotam postura e visão libertadoras humanizadoras, que rechaçam o legalismo que não se preocupa verdadeiramente com a integridade dos seres humanos. Nós, do EPJ, não concordamos com o chamado segmento evangélico que tem no extremismo religioso sua matriz ideológica. O extremismo ignora o ser humano, além de flertar constantemente com a hipocrisia. É sempre bom lembrar o relato do Evangelho de João onde os religiosos legalistas que, cumprindo a lei, queriam apedrejar uma mulher tida como adúltera (i) ; foram “autorizados” por Jesus, conquanto o fizessem aqueles que não tinham pecado. Essa condicional impediu o apedrejamento.

 

O grupo EPJ, portanto, repudia as ações de desrespeito e opressão, de violência e criminalização as quais foi submetida uma menina de 10 anos. Violência esta executada pelo estuprador, pelo Estado e instituições que deveriam proteger a criança e por grupos religiosos que perpetuam a cultura do estupro ao culpabilizar a vítima e querer ter o controle sobre os corpos das mulheres de todas as idades. Essas ações violentas vieram principalmente de grupos que se intitulam cristãos. Ressaltamos que aqueles que estão compromissados com o Evangelho de Jesus devem ser aqueles que combatem esse sistema que reforça a cultura do estupro e que se baseia na herança patriarcal que legitima a dominação dos homens sobre as mulheres e sobre seus corpos, neste caso de um corpo feminino frágil, sofrido, violado, em formação e infantil.

 

O EPJ, conquanto seja um grupo “evangélico”, não se perfila e, além disso, rechaça as posturas e ações desses que se intitulam cristãos, mas disseminam o ódio e a violência – negando o mandamento bíblico de “amar a Deus sobre todas as coisas e, semelhantemente, o próximo como a si mesmo ” (ii). No caso em questão, vemos que essas pessoas, que destilam ódio e violentam essa criança que  tem o direito e PRECISA interromper a gravidez, fazem isso em nome da preservação da vida (ou seja, o feto); são as mesmas pessoas que defendem que a população deve se armar, que “bandido bom é bandido morto” e que viram as costas para milhões de outras crianças que não conseguem acessar as mínimas condições para “existir”.

 

Reiteramos o apoio à criança de 10 anos, bem como exigimos que os responsáveis pela criminalização e exposição pública - descumprindo a lei que impede a exposição de crianças e adolescentes principalmente nessa situação de vulnerabilidade -, sejam devidamente responsabilizados e processados.

 

“...quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo; e quem me recebe, não está apenas me recebendo, mas também àquele que me enviou ”. (iii)

 

i  João 8:1-11

ii  Mateus 22:36 - 40; Marcos 12: 30 e 31

iii  Marcos 9: 36 e 37

Última atualização em Qui, 27 de Agosto de 2020 06:50